Blog do Emanuel Mattos

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Eternamente Cazuza

Foto publicada na Folha de S.Paulo, 1987
Chocante lembrar que morreu com apenas 32 anos.

Acordei pensando na falta que ele faz hoje nesse país mergulhado em escândalos, iniciados assim que a democracia foi reinstalada depois da ditadura militar.

Ariano de 4/4/1958, ganhou do pai, João Araújo, o apelido de Cazuza, um vespídeo solitário de ferroada dolorosa. E teve o apoio fiel da mãe Lucinha no período de extravagâncias e criatividade intensa até ser uma das primeiras vítimas famosas da Aids que o matou em 7/7/1990 quando ainda não havia o coquetel salvador.

Uma geração depois seus versos permanecem atuais.

“Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro"
Crítico em "Brasil":
"Mostra a tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim”
Cáustico em "Ideologia":
“Meu partido
É um coração partido
E as ilusões estão todas perdidas.”
Irônico em "Burguesia":
“As pessoas vão ver que estão sendo roubadas
Vai haver uma revolução
Ao contrário da de 64
Vamos pegar o dinheiro roubado da burguesia.”
O Brasil era presidido por Sarney, apoiado pelo PDS/PFL/PMDB. E o PT pregava moralidade.
Àquela altura Cazuza já constatava:
"Meus heróis morreram de overdose
Meus inimigos estão no poder."
Uma geração depois, o petista Lula governa com a coligação PP(ex-PDS)/PMDB/ e PTB, entre outros.
Tudo antevisto por Cazuza:
"Os meus sonhos foram vendidos
Tão barato que eu nem acredito"
Cazuza morreu sem saber o quanto foi profético.
“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades.”
Pena não haver na atualidade alguém com tal lucidez.

No filme, Cazuza reflete sua agonia frente à doença fatal:

“Os ignorantes são mais felizes
Eles não sabem quando vão morrer.
Eu não.
Eu sei que tenho um encontro marcado.
As pessoas esquecem o que precisam fazer
Eu não posso me dar esse luxo!
Faço tudo caber nos meus próximos poucos dias.
Todas as idéias que eu teria, as pessoas que eu conheceria, o que eu ainda fosse cantar.
Estou grávido, mas não posso esperar.
O tempo não pára e a gente ainda passa correndo.
Eu fiquei aqui, tentando agarrar o que eu puder.
Ando fraco.
Tenho um mundo ao redor que a gente nem percebe.
Tô ficando magro e pequeno para as minhas roupas.
Sinto que estou reunindo as minhas coisinhas, me concentrando.
Se eu pudesse guardava tudo numa garrafa e bebia de uma vez.
Penso no que vai ficar de mim.
Eu só sei insistir.”

E o poeta dá seu sensível recado final:

“O amor é o ridículo da vida.
A gente procura nele uma pureza impossível,
Uma pureza que está sempre se pondo, indo embora.
A vida veio e me levou com ela.
Sorte é se abandonar essa vaga idéia de paraíso que nos persegue.
Bonita e breve,
Como borboletas que só vivem 24 horas.
Morrer não dói.”

Por tudo, enfim, é emocionante relembrar Cazuza.

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